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interpretação
Alice for Dummies


'Se não há sentido neles', disse o Rei, 'isso livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos procurar um'


Adaptação de Alice feita em 1943.


Não se foge do destino

Disse que havia 'duas estruturas lineares'. A segunda se trata da formatação do original segundo os ditames da saga do herói, um recurso de produção de roteiros baseado nas pesquisas mitológicas de Joseph Campbell e usado exaustivamente em filmes de fantasia de Hollywood. Há a interferência de um intermediário que a leva para o outro mundo (Hagrid, em Harry Potter, faz isso; aqui, é o Coelho Branco), há o encontro com um mentor (que é o Chapeleiro, para ela; Dumbledore, para Harry); ela enfrente a morte e ganha a recompensa, ela tem uma batalha em que deve usar tudo que aprendeu, ela volta ao mundo comum e usa o aprendizado para agir nele. Passo a passo. As mudanças em Alice tratam de adequar todo seu mundo ao formato. Wonderland se torna maniqueísta: de um lado a Rainha Branca e do outro a Vermelha. Há uma guerra em curso. Há um destino escrito que deve se cumprir.

Assim como antes a constituição do mundo fantástico, isso também coaduna com outros filmes de Burton. Charlie, em A Fantástica Fábrica de Chocolates, é agraciado pela sorte, é ele entre tantos outros o escolhido. Não só, uma natureza imprime um percurso e um destino do qual não se escapa. Em Edward Mãos-de-Tesoura, o protagonista pode ter a aparência de inclusão, mas ele sempre será inadaptado. É sua tragédia. Em O Estranho Mundo de Jack, uma personalidade se encaixa bem em seu determinado contexto — a transposição dela para outro só causa pavor e sofrimento. O caminho de Alice é em direção ao seu 'lugar certo'. No fim desse texto, veremos o que ela encontrará.

A Alice original não é uma heroína. Ela não salva ninguém e na maior parte do tempo nem ao menos quer se envolver com as criaturas absurdas que vê, que a irritam e confundem. O caminho que ela segue não vai inelutavelmente a um clímax. Ele só vai. Assim:

'O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?'

'Isso depende muito de para onde você quer ir', respondeu o Gato.

'Não me importo muito para onde...', retrucou Alice.

'Então não importa o caminho que você escolha', disse o Gato.



Adaptação de 1915. Assista
No filme, a indeterminação nem mesmo é uma escolha. Quando Alice segue o caminho que deseja, em vez de obedecer ao cachorro, descobrimos logo que ela segue, insensível, o que sempre foi seu destino. Não há com que sofrer; caminhamos até ele placidamente.

Isso permite mais algumas explicações reconfortantes. Por que ela foi a esse mundo? Ora, ela era a heroína pela qual tal mundo chamava. Há uma causa e um efeito. No livro, crê-se que ela sonhou. Mas foi mesmo só um sonho? E o indecidido permanece. A aposta.

'Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso mas vou lembrar num instante.'

'Talvez não haja nenhuma', Alice aventurou-se a observar.

'Ora, ora, criança!', retrucou a Duquesa. 'Tudo tem uma moral, se você encontrá-la.' E foi se apertando contra Alice enquanto falava.

(...) Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso agüentou o quanto pôde.

'O jogo parece estar bem melhor agora', disse para manter a conversa.

'Perfeito', respondeu a Duquesa, 'e a moral disso é...‘Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!’'

'Alguém disse', Alice murmurou, 'que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios.'

'Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa', disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, 'e a moral disso é...‘Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos.'

'Como ela gosta de achar uma moral em tudo!', Alice pensou consigo mesma.


Nesse momento, você se assegura que Carroll riria se você tentasse achar sentidos. Mas...

(...)'Se algum deles for capaz de entender os versos', disse Alice 'eu lhe darei seis pence. Eu acho que não há um mínimo de sentido em nada.'

Todo o júri escreveu, em suas lousas. 'Ela acha que não há um mínimo de sentido em nada'. Mas nenhum deles se habilitou a explicar os versos.

'Se não há sentido neles', disse o Rei, 'isso livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos procurar um. E eu não sei não', ele continuou desdobrando o papel sobre os joelhos, olhando para ele de rabo de olho, 'eu até diria que há algum sentido (...)'


A própria ideia de sentido parece movediça aqui, nos três trechos que citamos. Mas não vou adiante nessa análise. Só parto dela para afirmar a oposição central entre filme e livro.

Série de TV de 1985
Alógico versus De-outra-lógica

A indeterminação e a inversão do raciocínio linear em Alice-livro é frequente.

Alice sentia-se um pouco irritada com a Lagarta fazendo tão pequenas observações e, empertigando-se, disse bem gravemente: 'Eu acho que você deveria me dizer quem você é primeiro.'

'Por quê?', perguntou a Lagarta.

Aqui estava outra questão enigmática, e, como Alice não conseguia pensar em nenhuma boa razão (...)


Ou:

Logo seu olho caiu sobre uma pequena caixa de vidro que jazia sob a mesa: ela abriu-a e encontrou um pequeno bolo, no qual a palavra 'COMA-ME' era lindamente inscrito. (...)

Alice comeu um pedacinho e disse ansiosamente para si mesma. 'E agora? E agora?', colocando a mão no topo da cabeça para sentir se estava crescendo. Ela ficou surpresa ao perceber que permanecera do mesmo tamanho. Para falar a verdade, é isso o que normalmente acontece quando se come um bolo, mas Alice já estava acostumada a não esperar nada senão coisas extraordinárias acontecendo, que as coisas acontecerem de uma maneira normal parececia chatice.


O que os personagens fazem é improvável, absurdo, incompreensível porque não sabemos que regras seguem ou se seguem alguma. Ou porque Alice tem determinadas concepções da realidade que são muito rígidas. Quero aqui chamar isso de alógico, nem com lógica ou de oposição à lógica, mas sem uma lógica. Com uma lógica cambiante. Indistinta. Fugidia. Aí é que está a subversão. No entanto, no Alice-filme, o que temos é um outro mundo, diverso do nosso, com outra lógica. A diferença é sutil e fundamental.

No primeiro caso, a compreensão é quebradiça. No segundo, ela pode ser consistente, pode ter um progresso e chegar à totalidade. É uma questão de aprender.

Tanto isso é verdade que os alimentos que fazem crescer e diminuir são comidas incomuns, com nomes próprios e com receitas determinadas. Há uma ciência a respeito deles, que, por exemplo, é conhecida pela Rainha Branca. Conhecimento constituído. Basta aprender.

Aproximação Política

Por fim, o final amesquinha o filme definitivamente. A criatividade de Alice é aceita. Passa de louca à empreendedora — visionária. Os loucos é que são os bons, diz várias vezes; sim, pois são eles que darão futuro aos negócios. As coisas impossíveis que a protagonista passa a engendrar antes do café são investimentos arriscados. E, com um intuito político flagrante — dadas as condições econômicas do nosso tempo — o filme leva Alice para conquistar a China, potência mundial que ameaça o domínio irrestrito que os Estados Unidos detiveram sob o mundo durante o século passado. Pode tudo isso ser interpretado de outra forma?

Caso possa, favor informar. Caso não, atentar para a ressignificação que o filme completo sofre quando supomos esse processo político subterrâneo. Porque a China é de outra lógica e detém seu conhecimento constituído a ser aprendido. A China possui produtos esquisitos e língua estranha. Dentro de território chinês, pode haver inadequação. Porém tudo pode ser superado, deve ser. Afinal, é o destino americano. Não é esse o mito do Mayflower?

Não que tudo o que tenha sido dito antes seja argumentação para essa tese política única. As partes do texto caminham por si. Alice é, de fato, um filme de Tim Burton — mas há qualquer resquício de Lewis Carroll?

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