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Fractais
[sítio dos sonhos] O Pássaro Amarelo

'Sonhou que desenroscava e quebrava a lâmpada, cortando os pulsos e os tornozelos com o vidro quebrado. 'Senti toda a luz me deixando''

Sítio dos sonhos, uma antologia onírica inspirada em Jorge Luís Borges. Neste texto, acabaremos por encontrar um Jesus violento, herói feroz que toma a obrigação de vingança nas próprias mãos e a cumpre em voos rasantes sob os olhos de um garoto assustado. O trecho de sonho que citamos se encontra em À Sangue Frio, livro de não-ficção escrito por Truman Capote. Capote narra com método jornalístico e primor literário a história de dois assassinos, culpados da chacina de uma família inteira. O autor ouve seus pensamentos, recompõe suas vidas e nos permite enxergá-los com mais clareza do que permite, em um primeiro momento, nossa crueza amedrontada; olhá-los nos olhos com mais clareza do que quereríamos de imediato.

A experiência onírica que segue é de um dos assassinos — o mais frágil deles e o que de fato começou o massacre — à espera da morte, no corredor da cadeira elétrica.

(...)

'Porque depois que já está determinado que uma coisa vai acontecer, a única coisa que se pode fazer é esperar que não aconteça. Ou sim – depende. Até o fim da vida, tem sempre alguma coisa esperando, e mesmo que seja uma coisa ruim, que você sabe que é ruim, o que você pode fazer? Não há como parar de viver. É feito o meu sonho. Desde que eu era pequeno, tenho esse mesmo sonho. Estou na África. Na floresta. Andando no meio das árvores em direção de uma árvore isolada. Meu Deus, essa árvore cheira mal; me deixa meio enjoado, o quanto ela fede. Só que ela é linda – com folhas azuis, e diamantes pendurados nos galhos. Diamantes do tamanho de laranjas. É por isso que eu estou ali – para pegar um barril de diamantes. Mas eu sei que no mesmo instante em que eu tentar, no instante em que eu estender a mão, uma cobra vai cair em cima de mim. Uma cobra que toma conta da árvore. Eu sei disso antes de acontecer, entendeu? E, meu Deus, eu não sei lutar contra uma cobra. Mas resolvo correr o risco. No fim das contas, estou com mais vontade de pegar os diamantes do que com medo da cobra. Assim, quando eu vou pegar o primeiro, e já estou com o diamante na mão, puxando, a cobra cai em cima de mim. Eu luto com ela, mas ela é escorregadia e eu não consigo agarrar, ela começa a me esmagar, dá para ouvir as minhas pernas quebrando. Agora vem a parte que me deixa todo suado só de lembrar. Ela começa a me engolir. Primeiro os pés. Como se eu estivesse afundando em areia movediça'.

(...) O final era muito importante, uma fonte de alegria íntima. Uma vez ele tinha contado a seu amigo Willie-Jay; descrevera para ele a ave imensa, uma 'espécie de papagaio' amarelo (...) que aparecera voando em seus sonhos pela primeira vez quando ele tinha sete anos, uma criança mestiça detestada e cheia de ódio que vivia em um orfanato da Califórnia dirigido por freiras – disciplinadoras de hábito que o açoitavam por fazer xixi na cama. Foi depois de uma dessas surras, uma que ele jamais conseguiu esquecer ('Ela me acordou. Estava com uma lanterna, e bateu em mim com ela. E quando a lanterna quebrou, continuou a me bater no escuro'), que o papagaio apareceu, chegou enquanto ela dormia, uma ave 'mais alta que Jesus, amarela como um girassol', um anjo guerreiro que cegava as freiras com o bico, comia seus olhos, massacrava todas elas enquanto 'pediam misericórdia', e depois o pegava com delicadeza, e o envolvia com as asas, levando-o pelos ares para o 'paraíso'.

Com o passar dos anos, os tormentos de que ave o livrava variavam; outras pessoas – as demais crianças, seu pai, uma moça sem fé, um sargento que ele encontrara no Exército – tomaram o lugar daquelas freiras, mas o papagaio continuava o mesmo, um vingador alado. Assim, a cobra, a guardiã da árvore dos diamantes, não conseguia acabar de devorá-lo, mas era ela própria devorada. E depois vinha a ascensão bem-aventurada! A ascensão a um paraíso que numa versão era apenas 'uma sensação', uma impressão de poder, de superioridade absoluta – sensações que em outra versão eram transpostas para 'Um lugar real. Como num filme. Talvez tenha sido aí que eu tenha visto – talvez seja a lembrança de um filme. Onde mais eu poderia ter visto um jardim como aquele? Com degraus de mármore branco? Fontes? E ao longe, lá embaixo, quando se chegava ao final do jardim, dava pra ver o mar. Lindo! Como perto de Carmel, na Califórnia. Mas o melhor de tudo – era uma mesa imensa. Você nunca viu tanta comida. Ostras. Peru. Salsichas. Frutas suficientes para encher um milhão de taças de salada de frutas. E mais – tudo completamente grátis. Quer dizer, não precisava ter medo de encostar naquilo. Eu podia comer quanto quisesse, e sem gastar nada. É assim que eu sabia onde estava'.
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(...) apesar das preocupações do carcereiro (nada de espelhos, cinto, gravata ou cadarços de sapato), imaginara um modo de matar-se. Porque também em sua cela havia uma lâmpada que ardia eternamente (...) ele tinha uma vassoura, e pressionando a escova da vassoura contra a lâmpada conseguia desenroscá-la. Uma noite, sonhou que desenroscava e quebrava a lâmpada, cortando os pulsos e os tornozelos com o vidro quebrado. 'Senti toda a respiração e toda a luz me deixando', disse ele, numa descrição subseqüente de suas sensações. 'As paredes da cela caíam, o céu descia, eu via o grande pássaro amarelo'.

(...) 'Ele me levantava, eu tinha o peso de um camundongo, e nós subíamos, cada vez mais. Eu via a praça lá embaixo, homens correndo, gritando, o xerife atirando em nós, todos furiosos porque eu estava livre, voando, estava melhor do que qualquer um deles'.
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(...) Perry passou todo o verão oscilando entre um estupor semi-adormecido e um sono doentio, encharcado de suor. Vozes trovejavam em sua cabeça; uma delas lhe perguntava o tempo todo: 'Onde está Jesus? Onde?'. E um dia ele acordou gritando: 'O pássaro é Jesus! O pássaro é Jesus!'.

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