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Fractais
[sítio dos sonhos] Descansa e te liberta

'Quero me transformar em sonho, para assustar a vida. E ser insignificante como um relógio no pulso da criança...'

Sítio dos sonhos, uma antologia onírica inspirada em Jorge Luís Borges. Nos dois poemas abaixo, o sonho surge como signo do descanso, da serenidade enfim conquistada; ou da indiferença alegre, da escapatória das prisões desse mundo. Separados nos dois poemas, esses sentidos tem uma proximidade sutil: por isso me parece significante que pensemos ambos em conjunto. No cerne, é o sonho como desconexão — que se mostra suave e benéfica.

'O Sonho', Narciso de Andrade

Deitaram-no com suavidade e murmuraram
ternamente: ('Repousa').
O homem inclinou a cabeça no travesseiro,
volveu-a para um lado e para outro, cerrou os
olhos e começou a sonhar...

Seus parentes, seus amigos, porém, não
compreenderam, e principiaram a chorar.

Durante a noite serviu-se café aos presentes. E
o homem - calmamente, deliciosamente -
levantou-se, atravessou o quarto, sorriu, tentou
dizer alguma coisa (não pôde) e - calmamente,
deliciosamente - atravessou a parede que dava
para o mar.

Seus parentes, seus amigos pararam de chorar.

'Aleluia', Ruy Apocalipse

Eu quero me transformar em sonho,
para assustar a vida.
E ser insignificante como um relógio
no pulso da criança...

Serei sonho...sonho pelas chamadas das lareiras
e pelo sol pescando a natureza!

Não importa que eu receba mensagens
dos anjos
despedaçados
pelas árvores!
Porque serei sonho e sonho quer dizer:
Segredo!
Segredo a se entreabrir
no leque das auroras,
chamando os camponeses para as campinas e as ninfas para os lagos!...


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