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Coluna
Nenhum Paradigma é Confiável

'Antes de desorientar seus espectadores, os artistas confundem-se a si próprios; são os ratos que ocupam seus laboratórios experimentais'


Green Light Corridor (1970), Naumam


O americano Bruce Nauman possui uma obra tão vasta e complexa quanto a do artista visual brasileiro Cildo Meireles. A distância geográfica e ideológica é grande, mas podemos encontrar um aspecto comum nas obras desses dois artistas: a problemática da espacialidade e da sensorialidade. Os dois elementos, proporcionados ao espectador pela imersão na forma de expressão mais usada por ambos, a instalação, não são somente ferramentas, mas também temáticas do trabalho artístico.

Cildo e Nauman se comprometem com a percepção, com a maneira com que o espectador sente e pensa seu corpo e mente em relação ao objeto da arte. Utilizam brincadeiras ilusionistas que fazem com que o espectador se confunda ou se sinta desorientado: a questão colocada é a de que o que se vê ou se percebe nem sempre condiz com a realidade da experiência, e vice-versa. Esse questionamento sobre as formas de percepção coloca em cheque a confiabilidade em nossa capacidade perceptiva e julgamento.

Além disso, antes de ser um desafio ao espectador, o pensamento engenhoso que permeia suas obras o é ao próprio artista que, durante o processo criativo, experimenta e avalia sua capacidade sensorial e perceptiva. Cildo e Nauman, antes de desorientar a percepção de seus espectadores, confundem-se a si próprios; tornam-se os ratos que ocupam seus laboratórios experimentais. Com essas mensagens confusas e aparentemente desconexas os dois artistas criam uma lógica, uma comunicação predeterminada, que dá vida às suas obras.



Eureka/Blindhotland (1970-75), Meireles
Em Eureka/Blindhotland — união de duas obras em uma —, Cildo dispõe no chão bolas de borracha que, apesar de ter exatamente o mesmo tamanho, possuem pesos e densidades diferentes; no meio encontram-se dois blocos retangulares de madeira formando um sinal de igual e outros dois blocos iguais formando um sinal de multiplicação. Cildo cria a ilusão de que os blocos são objetos diferentes. Além do conflito visual, há ainda a identificação entre o sinal de igual e o de multiplicação — sendo que ambos apresentam a mesma matéria, peso e densidade. Inspirado na fórmula de densidade de Arquimedes (densidade é igual a massa dividido pelo volume), na obra original, Eureka (dois blocos de madeira formando uma cruz), Cildo demonstra a possibilidade de criar um equilíbrio entre esses dois símbolos diferentes. Segundo ele:

'Às vezes, o trabalho é construtivista, mas não devido a seu resultado final, mas porque está presente uma ordem interna, este fator permanente de coerência que permite que coisas aparentemente dicotômicas se estruturem de maneira precisa.'


Nesta obra, é também marcante o som de cem bolas de borracha caindo em diversas combinações de componentes fixos e variáveis, que são: a altura da qual são derrubadas as bolas, o peso dos objetos e a distância entre o local da queda e o microfone. Blidhotland é um nome genérico dado pelo artista a uma série de trabalhos em que ele cria uma percepção cega da realidade através do sentido da audição e da consciência de densidade, peso e medida. Independente do que se vê, a mensagem expressa pela obra não se perde; ela é transmitida através da imersão que estimula os diversos sentidos e o discernimento da perceptibilidade.

Nauman, formado em Física e Matemática, possui uma abordagem semelhante a de Cildo com relação a arte, trabalhando sempre com a lógica e com elementos variáveis e fixos que compõe uma ordem predeterminada. O controle que possui sobre o espectador imerso em sua obra é experimentado exaustivamente pelo próprio artista durante sua concepção artística.


Live Taped Video Corridor (1970), Nauman
Na obra Green Light Corridor Nauman cria um contraste entre nossas capacidades sensoriais através do conflito entre a experiência perceptiva e a experiência física. Ao olharmos para a cor brilhante que emana da instalação, temos uma sensação de finitude, como uma luz no fim do túnel que pode ser alcançada; mas ao tentar passar por dentro do túnel a sensação que se tem se assemelha à claustrofobia, e essa experiência física gera uma outra percepção: a luz que libertaria o espectador — mais que espectador, uma cobaia do artista — parece quase inalcançável.

Já em Live/Taped Video Corridor, o artista desafia o espectador a ultrapassar um corredor estreito. O sujeito tem sua imagem filmada por trás, por uma câmera posicionada na entrada do corredor. As imagens capturadas são exibidas em monitores que se encontram no lado oposto. A imagem do sujeito que atravessa o estreito caminho é a metáfora para a luz no fim do túnel. A ironia é proporcionada pela ilusão de que o sujeito nunca chega a si próprio; quanto mais perto do monitor, mais longe se encontra da câmera que o filma, mais distante fica sua imagem. Assim, a tal luz no fim do túnel é pura ilusão, não existe realmente; ou talvez seja apenas inalcançável.

Enforced Perspective, também de Nauman, se assemelha a Eureka, de Cildo: uma série de instalações esculturais onde 36 blocos de metal fazem com que o espectador seja obrigado a mudar seu percurso de acordo com a disposição destes no chão. Os padrões formados por estes blocos parecem bastante simples, mas a infinitude de arranjos que podem ser feitos com eles possibilitou ao artista testar os diferentes comportamentos do espectador. Blocos exatamente iguais em tamanho e peso proporcionam ao artista diversas possibilidades de interação com o público, apenas por mudanças em sua distribuição.


Enforced Perspective (1975-76), Nauman



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Designer e ilustradora, e não menos, apaixonada por arte. Arte no seu sentido mais amplo: as habilidades de seduzir, fascinar, e enganar; que partem da busca por ideias de beleza e da expressão da subjetividade humana. E onde vejo essa arte? Na literatura, nas artes visuais, na música e até na filosofia. Mas há nisso tudo um ponto em comum e apaixonante: a possibilidade de apreender o que há de humano nessas expressões, compreender o ser humano através daquilo que ele tenta disfarçar…
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