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Artes
[Crônica] As Trocas Sublimes

Fernando Carballido nos envia a crônica 'Prosa aos que ela leem'. A partir de um primeiro trecho que pode parecer corriqueiro — o amor é cumplicidade... — o autor desenvolve um texto que se compõe em diálogo constante com o leitor, uma crônica que busca criar entre leitor e autor a mesma cumplicidade — e, desta forma, o mesmo amor. Todas essas palavras enfim como caminho que se percorre, na melhor das possibilidades, juntos. Tudo isso significará, após o último ponto final, talvez um retorno ao e uma ampliação do corriqueiro inicial: o que se defende aqui é uma abertura em relação às coisas do mundo. Amar os diversos amores...

Carballido é jornalista. Mantém o blog Amarelo Roça, no qual a crônica que segue foi publicada. A foto que ilustra esse post serviu de inspiração para a crônica.


'Logo você, querido leitor, para o qual o amor é tão passageiro quanto aquele raio que perpassa um mínimo espaço entre duas telhas e cria um filete eterno de poeira até morrer no chão'


Prosa aos que ela leem

O amor é cumplicidade. Nele temos as maiores das experiências de vida, as trocas sublimes. O amor é cumplicidade, e eu amo muito. Sempre soube amar. Amar os diversos amores. O amor de filho, de irmão, de amigo, de culpa, de namorado. Sempre sabendo amar, eu sempre quis amar, e ser amado. E sempre quis ser amado por qualquer pessoa, porque no quesito amar todos são cúmplices, sem diferença de cor, sexo, altura ou tamanho do dedão do pé. É que a gente acaba esquecendo que cumplicidade move tudo. Você já sentiu tudo isso? Essa vontade de amar? Não?!

Logo você, um viajante, que se abre ao mundo para aprender as diversas cumplicidades que constroem as diversas culturas, que compõem as várias qualidades de músicas, que são o que somos. Logo você que vive de mudança, que quer esquecer que viver parado é uma realidade e a estagnação nos torna sementes que não germinam. Logo você, querido leitor, para o qual o amor é tão passageiro quanto aquele raio que perpassa um mínimo espaço entre duas telhas e cria um filete eterno de poeira até morrer no chão. Aquela luz é sem fim, quanto o amor o é também, se deixado sentir, se deixado viver, se deixado compartilhar.

Mas o amor não é dividir, porque dividir é ficar sem um pedaço. É que ele não implica uma mudança total das coisas, das atividades mais intrínsecas à gente. Amar é o um mais um é dois, o meu e o seu juntos, adicionando sabor ao simples fato de ser e existir, que o português tão bem diferencia. Se eu lhe quero é porque a matemática se faz completa, se eu lhe procuro é porque seu alfabeto completa o meu, se eu lhe desejo conhecer, leitor que se fez parte de mim, é porque a vontade de ser dois com seu eu mais próprio e secreto é tão grande em mim que me faz uno em pensamento e ação, então escrevo essas palavras, na unidade que se fez em mim entre querer, desejar e procurar você.

Não é achando que a busca termina. Existe sempre um processo de assimilação que complica tudo e, ao mesmo tempo, dá um gostinho tão peculiar à descoberta. É que se procuro algo tão distante, concreto e criptografado quanto o coração de um leitor que nem conheço, a vontade tem que ser flexível, o que não se aplica à minha, nem nunca se aplicou. Das mãos à alma lhe custa dois olhares, um de cumprimento e outro de interesse. E olha que o interesse pode ser pelo severo prazer da solidão. Mais à frente, com um terceiro olhar de já basta, desculpe-me, mas é tarde, leitor desumano, minha alma se desfez em curiosidade e viver se faz no ato de lhe conquistar um amor nunca vindouro.

Dedico um abraço ao calor dos homens e um beijo aos homens que abraçam. Uma vez que o afeto e a ingenuidade são tão necessários quanto o maldito ato de respirar (porque amando suspiramos e suspirando não respiramos e não respirando sentimos o mais infalível sintoma do amor) e respirar é tão difícil perto de você. O que é estar perto? Quando distante de minha mãe, ela me dizia para olhar a lua, que estaríamos ligados como nunca quando nos tocando. Peço-lhe para olhar essas letras que lhe fazem perder tempo lendo, essa é nossa inestimável ligação. Assim me sinto em paz, como nunca antes poderia sentir sem ser pelo fato de escrever para você, leitor que não sabe amar, e durmo aflito, pensando ele vem amanhã?, continuo escrevendo ou leio o que escrevi?

Se chegou aqui, peço que releia pelo menos uma vez antes de prosseguir, já que o que digo a seguir só tem sentido se fixado tudo que tentei expor ao leitor fiel que tanta cumplicidade comigo teve nessas últimas seiscentas e quarente e sete palavras. Agora são, se relidas até aqui, mil trezentas e seis palavras de amor, de troca, de uma relação puramente sentimental, de prazer ou desprezo. Até porque os extremos também são afeto. Digamos que um menos afeto é sentimento de afeto, assim como um menos amor é amor.

O objetivo disso tudo não é lhe fazer mudar. A questão da vida é crescer, as religiões dizem isso, a medicina diz isso, nossos pais dizem isso, nós dizemos isso. Crescemos no exato momento em que agregamos aos nossos valores algo que não nos seria natural suficiente para entender. Mudar é para momentos de total desespero, quando fizemos de nós mesmos anticristos dos valores, anticristos do crescimento pessoal. Fazemo-nos, no fim das contas, nas relações que temos com o outro, e damos nome a essa relação tão completa: amor.

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