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Artes
Retrato da Ausência

A lente nos observa como se nós é que estivéssemos a ser retratados


'(...) o hóspede desse lugar ambíguo, onde se alternam, como que num pestanejar sem limite, o pintor e o soberano, é o espectador cujo olhar transforma o quadro num objeto, pura representação dessa ausência essencial.'


Michel Foucault, em As Palavras e as Coisas, percebe no quadro As Meninas, de Diego Velázquez, um jogo em que a representação, o representado e quem representa se confundem. Nele, vemos Velázquez enquanto pinta um quadro; não sabemos o que ele vê, qual o seu objeto; não sabemos qual o resultado de sua pintura, o grande quadro virado de costas; e ao mesmo tempo, estamos no foco de sua visão, tendo simultaneamente o ponto de vista do que era pintado (supostamente, o rei da Espanha) e o ponto de vista do pintor quando fez o quadro que efetivamente vemos.

'Ao mesmo tempo objeto — por ser o que o artista representado está em via de recopiar sobre a tela — e sujeito —, visto que o que o pintor tinha diante dos olhos ao se representar no seu trabalho era ele próprio, visto que os olhares figurados no quadro estão dirigidos para esse lugar fictício da personagem régia que é o lugar real do pintor, visto finalmente que o hóspede desse lugar ambíguo, onde se alternam, como que num pestanejar sem limite, o pintor e o soberano, é o espectador cujo olhar transforma o quadro num objeto, pura representação dessa ausência essencial.'


Uma dança semelhante parece ocorrer na série Autorretrato, do fotógrafo mineiro Rodrigo Zeferino. Em contraposição ao título, o que vemos não é a imagem do autor, mas somente a figura nua da câmera, refletida em espelhos. Temos o ponto de vista de quem fotografa — e temos o ponto de vista de quem é fotografado: a lente nos observa como se nós é que estivéssemos a ser retratados. O 'representador' se dilui completamente, e talvez só possa ser adivinhado pela montagem cênica das fotos, sempre algo incomum.

A indecisão entre presença e não-presença ocorre em outra série de Zeferino: em Revelação, o nome nos remete ao súbito conhecimento, e o que se vê é só a paisagem pura, de cores muito fortes. Tanto na anterior como agora, o que, paradoxalmente, está presente, é a ausência.

Algumas fotos dessas séries estão abaixo. Outras obras podem ser vistas no site oficial de Zeferino ou em seu Flickr.

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