Visuais
Nós não somos quem pensamos ser
Sociedade quebradiça, indivíduo em cacos e Inácio Araújo falando do valor das séries americanas
O que Hobbes diria disso?
Inácio Araújo, em seu
blog, levantou a hipótese de que as séries seriam a vanguarda do cinema americano. 'Primeiro, porque o cinema se tornou uma coisa muito cara. Ao fazer o filme o denominador comum tem que baixar bastante, pois é preciso levar ao cinema uma quantidade enorme de pessoas. Com a TV é mais fácil. A HBO, por exemplo, tem lá seus assinantes. Se eles gostarem, seguem a série. Se não gostarem, cancelam o segundo ano. Ou seja: não é por acaso que várias séries se tornaram o refúgio de alguns dos mais criativos cineastas e roteiristas de algum tempo atrás. Quer dizer, eles não se submetem nas séries aos terríveis compromissos que os filmes têm de enfrentar'.
Para Araújo, a principal qualidade das séries é o modo como se desenrolam, como histórias — segundo ele próprio — de Sherazade: 'esse flerte com a eternidade: uma história corre à nossa frente, mas em vez de caminhar para a solução, começa a gerar outras histórias, variantes, continuações. Ao longo do tempo, vai acontecendo um aperfeiçoamento, esse microcosmo vai ganhando em densidade, em aprofundamento. Não se assemelha à novela de TV, que tem a feitura muito às pressas e, praticamente todo o tempo fica embromando. Aqui, não. Há um criador da série e os produtores executivos, que controlam o conjunto da coisa. Os roteiristas revezam-se, assim como os diretores, mas têm intimidade com o conjunto. O resultado é uma ficção mais interessante do que a maior parte dos filmes'.
Para explorar a tese e saber do potencial das séries, vamos nos focar em um episódio da primeira temporada de uma das séries de maior sucesso em todos os tempos:
Arquivo X. Nele, uma discussão sobre identidade e contrato social, sobre a humanidade como um esforço, como dúvida, e não como fato garantido.
Indivíduo Fragmentado, Sociedade FrágilArquivo X durou de 1993 a 2002 e gerou dois filmes. Era uma série que abordava ufologia, ficção científica e o sobrenatural de uma forma geral. O episódio que analisaremos é 'Terror no Gelo'. Nele, uma equipe de cientistas que explorava as crostas de gelo dos pólos acaba atacada por uma espécie de parasita ancestral, parecido com uma minhoca, que se coloca na na medula, se alimentando dos hormônios que tem o poder de nos deixar agressivos. Todos da equipe terminam mortos — assassinados um pelos outros e, por fim, os últimos dois dão tiros nas próprias cabeças, para encerrar a calamidade. Minutos antes disso, um deles dizia: 'nós não somos quem pensamos ser, nós não somos quem pensamos ser'.
Os protagonistas Mulder e Scully viajam com alguns cientistas para o local da expedição, para investigar quais foram a causa das mortes. Um dos membros do grupo é infestado pelo parasita, e acaba morrendo quando retiram o verme de seu corpo. O problema é maior ainda porque esse integrante que morre é justamente o piloto do avião que os levou até ali. Estão, portanto, presos no meio do nada, sob o risco de infecção de algo que não sabem conter. As tensões e desconfianças entre eles cresce cada vez mais. Continuamos com o enredo daqui a pouco. Temos primeiro que analisar como o tema 'identidade' foi sendo introduzido por detalhes ao longo do episódio.
Primeiramente, é óbvio que a frase balbuciada logo no início dá o tom da história. Se eu não sou quem penso ser, se eu não tenho a identidade que acredito ter, se eu, enfim, não sou eu assim como eu vejo, isso implica em um ser fora do controle de si mesmo, fragmentado entre o que lamenta a falta de poder e seus impulsos. Parece complicado conceber alguém assim — ou compreender como alguém chega a esse ponto. Então, os primeiros instantes nos apresentam uma anomalia e nela está implicíta uma pergunta: o quão distante eu estou dela? O quanto estou sobre o controle de mim mesmo? O quanto posso confiar em mim?

Verme entra pela orelha de um cão
Pouco depois dessa introdução, quando Mulder apresenta o caso a Scully, ele diz: 'nós deram esse caso — ou porque somos excelentes ou porque somos dispensáveis'. Essa frase, no contexto do episódio, serve para denotar a dificuldade de saber a opinião alheia sobre o que somos. O valor do indivíduo varia de observador para observador. Quem é você para os seus pais? E para os seus amigos? E para os seus companheiros de trabalho? Aqui a falta de controle sobre si apresentada nos momentos iniciais já ganha uma imagem mais plausível. O quanto enxergo de mim mesmo? O quanto outros estão certos (ou errados) sobre mim? Todo indivíduo recebe essa interpretação múltipla da sociedade.
E quando eles estão prestes a subir no avião para voarem ao local da expedição, um dos cientistas exige que todos mostrem as identidades — 'para termos certeza de que somos quem dizemos que somos'. Mesmo se não se percebe as alusões ao tema da identidade que estão colocadas ao longo do episódio, é fácil perguntar nessa cena: 'o que uma identidade garante?'. Ora. Nada. É um papel com palavras e uma foto. Aquilo não diz nada sobre nós; nada sobre quem somos, o que pretendemos, nossas mentiras ou verdades. Mas aquela, no entanto, é a base do relacionamento político e social. O que essa cena propõe é a fragilidade da convivência social, da própria sociedade. No decorrer das cenas, esse grupo trancafiado no meio da neve será um microcosmo representando os agrupamentos humanos do mundo, encenando os motivos pelos quais esses castelos de cartas podem tremer — e cair.
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